BRASÍLIA. Neto e herdeiro
político de um dos ícones das esquerdas no Brasil — o ex-governador
Miguel Arraes —, com seus olhos azuis e um sorriso permanente de
propaganda de pasta de dentes, o governador de Pernambuco e presidente
nacional do PSB, Eduardo Campos, de 46 anos, vem fazendo no Nordeste,
sorrindo, o que antes o todo poderoso Antonio Carlos Magalhães fazia
gritando na Bahia. Pelo poder conquistado não só na região e o
aniquilamento da oposição em seu estado, já é chamado de o novo “painho”
do Nordeste.
Mudou a economia do estado, transformando-o num canteiro de obras,
ganhou a queda de braço de 30 anos com outros estados nordestinos por
uma refinaria da Petrobras, foi eleito o melhor governador do Brasil por
dois anos seguidos com 86% de avaliação positiva, é aliado fiel do
governo Dilma Rousseff e comanda o partido com pulso de ferro. Mas,
entre os aliados, paira uma desconfiança de que o político mais poderoso
do Nordeste vá lhes dar uma rasteira em 2014.
Vá para ganhar!
Aos 19 anos, em 1986, fez campanha para o avô que voltava do exílio e
disputava o governo de Pernambuco. Com a vitória, passou a chefe de
gabinete. Em 1994, no novo governo de Arraes, assumiu o cargo mais
importante do governo, o de secretário da Fazenda.
Foi quando protagonizou o escândalo dos precatórios. Uma CPI no
Congresso Nacional resultou numa denúncia do Ministério Público Federal
para apurar sua responsabilidade na acusação de emitir fraudulentamente
títulos públicos de Pernambuco para pagar precatórios pendentes.
Houve uma completa desconstrução de sua imagem e da do então
governador Arraes. A reabilitação na eleição de 1998, da qual muitos
duvidavam, virou um case eleitoral: ele se elegeu deputado federal e
virou líder do PSB na Câmara.
Na eleição de 2002, uma ala do PSB apoiou o peemedebista Anthony
Garotinho para a eleição presidencial, mas Eduardo Campos aproximou o
partido de Lula, começando uma parceria que persiste até hoje. Com as
trapalhadas do então presidente do PSB, Roberto Amaral, no Ministério da
Ciência e Tecnologia, articulou em causa própria e acabou ocupando a
vaga na Esplanada.
Em 2006, com o apoio de Lula, elegeu-se governador. Outro grande
trunfo na época foi o arquivamento do processo dos precatórios pelo STF,
inocentando Campos e Arraes. A absolvição derrubou a única agenda
negativa que os adversários na disputa tinham contra ele.
É casado com a economista e auditora concursada do Tribunal de Contas
do Estado Renata e tem quatro filhos — Maria Eduarda, João Henrique,
Pedro Henrique e José Henrique. Os adversários dizem que Eduardo Campos
difere do avô Miguel Arraes na questão do “patrimonialismo e familismo”.
O governador teria transferido a família dele e da mulher para o
governo. O irmão João Campos, escritor, virou promotor da Fliporto, uma
feira de livros que é particular, mas conta com patrocínios de órgãos
estaduais e federais.
Antes de ter a imagem arranhada na cena política nacional pela
campanha que fez para eleger a mãe como ministra do Tribunal de Contas
da União (TCU), ano passado, ele já tinha se cercado de parentes no
Tribunal de Contas do Estado (TCE). A mulher já era auditora concursada.
Mas ele indicou e nomeou como conselheiros um primo seu, João Campos; e
um primo da mulher é um dos seus homens fortes, Marcos Loreto.
O ex-líder petista Maurício Rands, nomeado secretário de Articulação
Institucional do governo de Pernambuco, é primo de Renata. O atual
secretário da Casa Civil, Tadeu Alencar, é primo do governador. O pai de
Renata, o médico Cyro de Andrade Lima, foi nomeado membro do Conselho
de Administração da estatal de saneamento Compesa.
— Hoje, Eduardo Campos deseja se tornar hegemônico na esquerda,
sepultando o PT ou subordinando-o inteiramente ao Palácio (das
Princesas, sede do governo local). Sobre a oposição, ele mesmo desdenha e
diz que ela está falando apenas para 6% do eleitorado, pois 90% o
aprovam, segundo as pesquisas, e 4% estão indecisos — diz a ex-deputada
tucana Teresinha Nunes, uma das poucas vozes da oposição em Pernambuco.
Um dos mais proeminentes representantes do capital e aliado de
primeira hora em Pernambuco, o ex-presidente da Confederação Nacional da
Indústria(CNI) e senador eleito em sua chapa, Armando Monteiro Neto
(PTB-PE), diz que Eduardo Campos recuperou a autoestima dos
pernambucanos ao colocar o estado numa posição de liderança na região.
— Eduardo é o emblema de um novo tempo para Pernambuco — diz
Monteiro.
O escritor Ariano Suassuna é quase um amuleto que Eduardo Campos carrega
desde que deu os primeiros passos na política. Quando nasceu da união
do escritor Maximiano Campos e Ana Arraes, sua vizinhança era, na
frente, a casa de Ariano. Do lado, a do avô Miguel Arraes. Suassuna tem
com ele uma relação paternal e diz que a amizade começou desde antes de
ele nascer.
O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), disputou com Eduardo
Campos o governo em 2006, e a campanha não foi nada amena. Agora travam
de novo uma guerra surda, porque Campos não quer que ele dispute o
governo em 2014 com seu afilhado, o ministro Fernando Bezerra
(Integração Nacional), em evidência neste início de ano, acusado de ter
favorecido seu estado com recursos para prevenção e combate a enchentes.
A proximidade maior de Campos no PT é com Lula, com quem se reúne amiúde para discutir decisões de governo e alianças regionais.
Na campanha de Dilma, ganhou pontos ao enquadrar e obrigar o
correligionário Ciro Gomes (CE) a desistir de se candidatar a
presidente. Ganhou eterna gratidão de Lula, mas também um desafeto
barulhento no partido. Ciro não o perdoa. Já disse, por exemplo, que
Campos não tem a experiência que ele, Ciro, tem em campanhas
presidenciais.
— Lula e Dilma ainda vão se arrepender. Eduardo Campos ainda vai dar uma rasteira — aposta, na surdina, um dirigente petista.
Parcerias com o PSDB
Mesmo sendo apontado como um fiel aliado de Lula e Dilma, o
governador pernambucano tem parcerias eleitorais com o PSDB de Aécio
Neves em vários estados e é estimulado a disputar a Presidência em 2014
por setores da base governista e da oposição — Geddel Vieira Lima
(PMDB-BA) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), por exemplo, consideram que,
por seguir desde o início a política bem-sucedida Lula/Dilma, ele teria
até mais chances que Aécio Neves.
— Eduardo Campos é hoje a liderança mais destacada do Nordeste e com
maior poder de aglutinação — diz Geddel.
O cientista político pernambucano Antônio Lavareda, ligado ao PSDB,
reconhece seu potencial:
— Eduardo Campos conseguiu colocar seu nome na prateleira dos
presidenciáveis para 2014.
— É um quadro da política nacional que tem contribuído muito com nosso
estado. A economia mudou. Eduardo é inteligente, trabalhador e sensível.
Não conheço inimigos políticos dele — diz a mãe, Ana Arraes.
A ministra atual do TCU acha que o filho aprendeu bem o ensinamento
de que, se vai para uma disputa, tem que ser para ganhar:
— Tudo começa na cabeça. Se você coloca na cabeça e vai para uma eleição
se sentindo derrotado, vai perder. Não é uma coisa de prepotência, de
ganhar de qualquer jeito.
Mas seus adversários políticos não concordam que é só uma questão de
persistência. Dizem que Eduardo Campos é extremamente agressivo quando
quer conquistar alguma coisa. E, se resolvem lhe enfrentar, é no tudo ou
nada: "se está comigo ótimo, se está contra mim, espere", contam os
inimigos políticos.
Adversário de Arraes em 1986 na disputa pelo governo de Pernambuco, o
hoje ministro do TCU José Múcio Monteiro conhece Eduardo Campos desde
menino. E é farto nos elogios:
— Eduardo é um homem simpático, extremamente agradável, mas também
extremamente decidido e determinado. E muito duro quando precisa ser. É
afável e simpático, mas um gestor duro, que busca muita eficiência de
gestão, mais voltado para a história do avô com as classes menos
favorecidas.