"Qualquer governo é melhor que a
ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao
mal maior da Anarquia, da violência civil generelizada, e do medo
permanente da morte violenta".
"A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do
espírito, que, embora por vezes se encontre um homem manifestantemente
mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim,
quando se considera tudo isso em conjunto, a diferença entre um e outro
homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com
base nela reclamar qualquer benefício a que outro não possa também
aspirar, tal como ele".
O sistema que envolve recursos públicos
e privados ainda predomina na maioria dos países, embora esteja na
origem de sucessivos casos de corrupção
Vinícius Mendes
O financiamento de campanhas eleitorais ao redor do mundo se
tornou, a partir da metade do século 20, um dos maiores debates sobre a
democracia moderna que hoje rege a maior parte dos países. O modelo
democrático atual depende da existência de partidos políticos, que, por
sua vez, precisam arrecadar dinheiro de alguma forma para funcionarem.
Sendo assim, é óbvio que, quanto mais ricos, mais estes grupos políticos
têm capacidade de atingir o maior objetivo deles: o poder. Ao analisar a
situação, um dos cientistas políticos mais importantes da atualidade, o
francês Maurice Duverger, apontou a fragilidade do sistema: “A
democracia não está ameaçada pelo regime de partidos, mas pelo
financiamento deles”.
Um dos países de vanguarda no financiamento público de campanhas
políticas é a Alemanha, que estipulou a regra para as eleições
presidenciais de 1959. Inicialmente, o financiamento se direcionava
apenas à reposição dos custos de campanha, acontecendo nos anos
eleitorais. Em 1994, porém, a lei foi alterada, e os recursos passaram a
ser distribuídos anualmente. Desde então, para a escolha dos 620
representantes daBundestag, que equivale à Câmara
dos Deputados, vale um sistema proporcional à votação recebida nas
urnas. Os partidos apresentam listas de candidatos e o dinheiro é
direcionado de acordo com os votos que a agremiações políticas tenham
recebido em suas listas.
Na França, as campanhas políticas também são realizadas com recursos
públicos, com a proibição de doações de empresas tanto para candidatos
como para partidos políticos. A proibição de empresas ou de qualquer
outra pessoa jurídica (fundações, associações, sindicatos) de fazer
doações a políticos entrou em vigor em 1995. Foi quando ocorreu uma
reforma na legislação eleitoral na França, motivada por uma série de
escândalos sobre financiamentos ocultos recebidos pelos partidos em
1988. Mas, ao contrário do alemão, o sistema francês permite doações de
particulares: além do financiamento pelo Estado, pessoas físicas podem
doar, em uma eleição, até 4,6 mil euros (R$ 13,4 mil) a cada candidato.
Podem doar também até 7,5 mil euros (R$ 21,8 mil) por ano para cada
partido político.
Na Itália, o financiamento público foi instituído em 1974, entrando
em vigor, de fato, apenas em 1993. No entanto, um referendo popular em
1999 alterou novamente as regras, já que, na consulta, os italianos se
mostraram em desacordo com os ordenamentos. Assim, uma nova lei foi
escrita, prevendo o reembolso de despesas das propagandas eleitorais,
proporcional ao tamanho do partido, à representatividade dele no
Congresso. As empresas privadas até podem financiar partidos, mas são
obrigadas a declarar as doações, como acontece no Brasil. A Itália, no
entanto, foi e continua sendo palco de escândalos provocados por desvios
de conduta de seus políticos. Em 1992, foi deflagrada uma das operações
policiais mais famosas da história do país, a Operação Mãos Limpas, que
investigou a relação da máfia italiana com bancos, instituições
judiciais e campanhas eleitorais de parlamentares. O grande trunfo da
operação foi o testemunho de um dos principais chefes de grupos
mafiosos, Tommaso Buscetta, que havia sido preso em São Paulo, em 1983, e
deportado para a Itália.
A Operação Mãos Limpas terminou com 6.059 pessoas presas, dentre elas
872 empresários, 1.978 administradores e 438 representantes do
Legislativo, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros. A
corrupção no país não acabou: em junho deste ano a Guardia di Finanza
de Veneza concluiu uma grande investigação por lavagem de dinheiro,
envolvendo políticos, militares e juízes. Vinte e cinco pessoas foram
presas e outras dez colocadas sob supervisão judicial, entre elas o
atual prefeito da cidade, Giorgio Orsoni, do esquerdista Partido
Democrático, acusado de financiar ilegalmente sua campanha à prefeitura
em 2010.
Na América Latina, os sistemas tendem ao modelo misto de
financiamento de campanhas. Estudo de Daniel Zovatto, diretor para a
América Latina e Caribe da organização IDEA Internacional, mostrou que
94% dos países da região aderem à forma de financiamento eleitoral em
que os partidos políticos recebem fundos públicos e privados para
financiar suas campanhas e custear gastos de funcionamento.
É assim, por exemplo, na Argentina, onde os recursos são distribuídos
pelo Estado, mas com a autorização do aporte de pessoas físicas em
candidaturas. Pessoas jurídicas, porém, são proibidas de doar, com
exceção dos partidos, em uma dinâmica parecida à da França. No México,
as doações privadas não podem superar os financiamentos públicos, mas,
assim como na Itália, a corrupção permanece. “Não deu certo (no México)
porque as empresas continuam financiando. Só que agora é pior porque
elas financiam e não se tem nenhum tipo de conhecimento de quem está
financiando e nem de quanto está sendo financiado. Então, gerou um
problema muito maior de corrupção”, analisa Maria do Socorro Souza
Braga, professora de Ciência Política da Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar).
Por fim, nos Estados Unidos, o financiamento de campanhas políticas
para eleições federais (Presidência, Senado e Câmara) é supervisionado
pela Federal Election Commission (FEC, na sigla em inglês), uma
agência federal independente. A maior parte do financiamento vem de
fontes privadas — que podem ser pequenos doadores individuais (pessoas
que contribuem com US$ 200 ou menos), grandes doadores individuais (que
contribuem com mais de US$ 200), comitês de ação política (os chamados
PACs) e grupos cívicos — ou mesmo de autofinanciamento, nos casos em que
o candidato financia a campanha com seu próprio dinheiro.
Saiba quanto ganham deputados, senadores, ministros
de governo, ministros do STF e Presidente da República, além dos
benefícios adicionais específicos de cada cargo
Deputados federais no Brasil ganham R$ 33,7
mil por mês, além de R$ 92 mil mensais de verba de gabinete, entre
outros benefícios (divulgação)
PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Salário mensal:R$ 30,9 mil. Moradia: Duas residências oficiais em Brasília – o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto. Plano de Saúde: Todas as despesas são pagas, incluindo as de familiares diretos. Cotas: Não tem. A Presidência tem cartões corporativos, cujo limite varia de acordo com o orçamento. Passagens: Viaja em aviões da FAB tanto em missões oficiais quanto em viagens de âmbito particular. Cargos de confiança: Não há limites. Depende da criação de cargos autorizada pela Presidência. MINISTROS DE GOVERNO. Salário mensal: R$ 30,9 mil. Moradia: Residência oficial ou auxílio moradia de R$ 6,6 mil. Plano de Saúde: Não têm assistência específica, exceto se tiverem sido servidores públicos. Cotas: Não têm. Têm acesso a cartão corporativo com limite que varia de acordo com o orçamento de cada ministério. Passagens: Em missões oficiais, podem usar aviões da FAB ou voos de carreira.
Cargos de confiança: Não há limites. Depende da criação de cargos autorizada pela Presidência. MINISTROS DO STF Salário mensal: R$ 33,7 mil. Moradia: Residência oficial ou auxílio-moradia de R$ 4,3 mil. Plano de Saúde: Pagam plano de saúde específico do STF. Dependentes e cônjuges podem ser incluídos na cobertura. Cotas: Não têm direito a
cotas ou verbas de gabinete e nem acesso a cartões corporativos. Cada
ministro tem direito a um carro oficial e motorista. Gastos com
combustível são ilimitados. Passagens: Cota anual de R$ 42,8 mil para gastos com passagens. O presidente do STF também pode viajar em aviões oficiais. Cargos de confiança:
Cada ministro pode nomear até 8 funcionários de confiança. Metade deles
deve ser concursado. O salário bruto de cada assessor é de R$ 10,3 mil. SENADORES Salário mensal: R$ 33,7 mil. Moradia: Apartamento funcional ou auxílio-moradia de R$ 4,2 mil. Plano de Saúde:
Senadores, cônjuges ou dependentes de até 21 anos (ou 24, quando
universitários), têm despesas médicas reembolsáveis. Limite para
despesas odontológicas e psicoterápicas é de R$ 25,9 mil. Cotas: Cota
parlamentar: R$ 15 mil (paga despesas com funcionários, aluguel de
escritório de apoio, material de consumo, combustíveis, consultoria,
entre outras). Despesas extras: R$ 9 mil (custos com gráficas e
telefonia fixa). Despesas com telefone celular são ilimitadas. Passagens: Cinco trechos de passagens aéreas entre a capital do Estado do senador e Brasília por mês.
Cargos de confiança: Podem nomear funcionários em Brasília ou em seus
escritórios regionais desde que dentro do limite imposto pela cota
parlamentar que é de R$ 15 mil por mês. DEPUTADOS FEDERAIS Salário mensal: R$ 33,7 mil. Moradia: Apartamento funcional ou auxílio-moradia de R$ 4,2 mil. Plano de Saúde:
Deputados e familiares têm atendimento médico gratuito no departamento
médico da Câmara. Deputados também podem ter despesas médicas e
odontológicas realizadas na rede privada reembolsadas. A medida não se
aplica a familiares. Cotas: Cota de R$ 30,2
mil a R$ 44,9 mil (pode ser usada para pagar passagens, telefone,
Correios, fretamento de aeronaves entre outras despesas. Varia de acordo
com o Estado do parlamentar). Verba de gabinete: R$ 92 mil (destinada
ao pagamento de cargos de confiança). Passagens: Podem
comprar passagens com a verba de gabinete. A partir de 2015, as mulheres
dos deputados também poderão ter passagens pagas pela Câmara. Cargos de confiança: Têm direito a nomear até 25 funcionários cujos salários somados não podem ultrapassar R$ 92 mil.
O bem comum foi enviado ao limbo pelo neoliberalismo.
Em seu lugar, entraram as noções de rentabilidade, de flexibilização,
de adaptação e de competitividade
Leonardo Boff
As atuais discussões políticas no Brasil em meio a uma ameaçadora crise hídrica e energética
se perdem nos interesses particulares de cada partido. Há uma tentativa
articulada pelos grupos dominantes, por detrás dos quais se escondem
grandes corporações nacionais e multinacionais, a mídia corporativa e, seguramente, a atuação dos serviços de segurança do Império norte-americano, de desestabilizar o novo governo de Dilma Rousseff.
Não se trata apenas de uma feroz crítica às políticas oficiais mas há
algo mais profundo em ação: a vontade de desmontar e, se possível,
liquidar o PT que representa os interesses das populações que historicamente sempre foram marginalizadas. Custa muito às elites conservadoras
aceitarem o novo sujeito histórico – o povo organizado e sua expressão
partidária – pois se sentem ameaçadas em seus privilégios. Como são
notoriamente egoístas e nunca pensaram no bem comum, se empenham em
tirar da cena essa força social e política que poderá mudar irreversivelmente o destino do Brasil.
Estamos esquecendo que a essência da política é a busca comum do bem comum. Um dos efeitos mais avassaladores do capitalismo globalizado e de sua ideologia,
o neo-liberalismo, é a demolição da noção de bem comum ou de bem-estar
social. Sabemos que as sociedades civilizadas se constroem sobre três
pilastras fundamentais: a participação (cidadania), a cooperação societária e respeito aos direitos humanos.
Juntas criam o bem comum. Mas este foi enviado ao limbo da preocupação
política. Em seu lugar, entraram as noções de rentabilidade, de
flexibilização, de adaptação e de competitividade. A liberdade do
cidadão é substituída pela liberdade das forças do mercado, o bem comum, pelo bem particular e a cooperação, pela competição.
A participação, a cooperação e os direitos asseguravam a existência
de cada pessoa com dignidade. Negados esses valores, a existência de
cada um não está mais socialmente garantida nem seus direitos
afiançados. Logo, cada um se sente constrangido o garantir o seu: o seu emprego, o seu salário,
o seu carro, a sua família. Impera o individualismo, o maior inimigo da
convivência social. Ninguém é levado, portanto, a construir algo em
comum. A única coisa em comum que resta, é a guerra de todos contra todos em vista da sobrevivência individual.
Neste contexto, quem vai implementar o bem comum do planeta Terra? Em recente artigo da revista Science (15/01/2015) 18
cientistas elencaram os nove limites planetários (Planetary
Bounderies), quatro dos quais já ultrapassados: o clima, a integridade
da biosfera, o uso do solo, os fluxos biogeoquímicos (fósforo e
nitrogênio). Os outros encontram-se em avançado grau de erosão. Só a
ultrapassagem desses quatro, pode tornar a Terra menos hospitaleira para
milhões de pessoas e para a biodiversidade. Que organismo mundial está
enfrentando essa situação que destrói o bem comum planetário?
Quem cuidará do interesse geral de mais de sete bilhões de pessoas? O neoliberalismo é surdo, cego e mudo a esta questão fundamental como o tem repetido como um ritornello o Papa Francisco.
Seria contraditório suscitar o tema do bem comum, pois o neoliberalismo
defende concepções políticas e sociais diretamente opostas ao bem
comum. Seu propósito básico é: o mercado tem que ganhar e a sociedade
deve perder. Pois é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é
por que vamos construir coisas em comum? Deslegitimou-se o bem-estar
social.
Ocorre, entretanto, que o crescente empobrecimento mundial resulta
das lógicas excludentes e predadoras da atual globalização competitiva,
liberalizadora, desregulamentora e privatizadora. Quanto mais se
privatiza mais se legítima o interesse particular em detrimento do
interesse geral. Como mostrou em seu livro Thomas Piketty, O Capitalismo no século XXI quanto mais se privatiza, mais crescem as desigualdades. É o triunfo do killer capitalism. Quanto de perversidade social e de barbárie aguenta o espírito? A Grécia veio mostrar que não aguenta mais. Recusa-se a aceitar do diktat dos mercados, no caso, hegemonizados pela Alemanha de Merkel e pela França de Hollande.
Resumindo: que é o bem comum? No plano infra-estrutural é o acesso justo de todos à alimentação, à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à cultura.
No plano social e cultural é o reconhecimento, o respeito e a
convivência pacífica. Pelo fato de sob a globalização competitiva foi
desmantelado, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso,
importa dar hegemonia à cooperação e não à competição. Sem essa mudança,
dificilmente se manterá a comunidade humana unida e com um futuro bom.
Ora, essa reconstrução constitui o núcleo do projeto político do PT originário e de seus afins ideológicos. Entrou pela porta certa: Fome Zero depois transformada em várias políticas públicas
de cunho popular. Tentou colocar um fundamento seguro: a repactuação
social a partir dos valores da cooperação e a boa-vontade de todos. Mas o
efeito foi fraco, dada a nossa tradição individualista a
patrimonialista.
Mas no fundo vigora esta convicção humanística de base: não há futuro a longo prazo para uma sociedade fundada sobre a falta de justiça,
de igualdade, de fraternidade, de respeito aos direitos básicos, de
cuidado pelos bens naturais e de cooperação. Ela nega o anseio mais
originário do ser humano desde que emergiu na evolução, milhões de anos
atrás. Quer queiramos ou não, mesmo admitindo erros e corrupção, o melhor do PT
articulou e articula esse anseio ancestral. É a partir daí que pode se
resgatar, se renovar e alimentar sua força convocatória. Se não for o PT
serão outros atores em outros tempos que o farão.
Cooperação se reforça com cooperação que devemos oferecer
incondicionalmente.Sem isso viveremos numa sociedade que perdeu sua
altura humana e regride ao regime dos chimpanzés.
Considerado a raiz da
maioria dos males políticos do país, atual modelo, que permite doações
de empresas, é alvo de críticas de todos os lados. Julgamento no STF
pode antecipar início das mudanças eleitorais
As eleições no Brasil estão entre as mais caras do mundo. Segundo levantamento da revista Em Discussão!
com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o custo do voto
nas eleições presidenciais, por exemplo, cresceu quase quatro vezes
entre 2002 e 2014, passando de R$ 227 milhões (valor atualizado) para R$
830 milhões.
Campanhas mais caras significam maior dependência do
poder econômico para uma candidatura competitiva — ou seja, mais
participação e maior influência dos grandes doadores eleitorais, que são
as grandes empresas.
Na legislação eleitoral vigente, não há
limite em valores absolutos para a doação por parte de pessoas
jurídicas, que podem doar até 2% do faturamento bruto do ano anterior,
fatia que será mais vultosa quanto maior for a companhia. Também não há
restrição a que uma mesma empresa financie candidatos diferentes.
O
fenômeno incomoda tanto a classe política quanto a sociedade civil
organizada. O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), por exemplo, não
mede palavras. Para ele, o sistema está “putrefato”. “Tem que acabar já,
de preferência ontem. Insistir nele é corroer todas as estruturas do
estado democrático de direito”, diz. Já o líder do PT no Senado,
Humberto Costa (PE), acredita que o financiamento privado de campanhas
“tem sido o principal responsável por boa parte dos escândalos do país”. Os problemas atuais
O
juiz eleitoral Márlon Reis, fundador do Movimento de Combate à
Corrupção Eleitoral (MCCE), enxerga que uma “relação inadequada” se
desenvolveu entre políticos e empresas devido ao modelo de financiamento
privado. “As doações dão às empresas o direito de escolher a maior
probabilidade de êxito. Os grandes doadores definem e quem não pode ou
não quer doar fica em dificuldades depois, nos contatos políticos com o
Estado. Não há finalidade cívica. É investimento”, explica.
O
barateamento das campanhas e a redução do papel das empresas são
apontados como prioridades em uma reforma política. O caminho indicado
por diversos parlamentares e representantes de entidades é a adoção de
alguma forma de financiamento público das campanhas.
Para Randolfe
Rodrigues, a falência do modelo do financiamento privado está sendo
demonstrada pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, que investiga
empresas suspeitas de pagarem propinas para garantir contratos com a
Petrobras. “É a institucionalização da corrupção. Doa-se legalmente, mas
depois ganha-se em licitação. Até o financiamento legal acaba sendo uma
lavanderia”, resume o senador.
Randolfe também usa um exemplo
concreto para ilustrar a influência das empresas doadoras de grandes
somas. Ele relata que o grupo JBS, principal doador em 2014, com R$ 352
milhões distribuídos entre diversas candidaturas, protestou contra a
indicação da senadora licenciada Kátia Abreu (PMDB-TO) para o Ministério
da Agricultura. “[A empresa] ficou insatisfeita com a nomeação e tentou
vetar. Tenho minhas divergências com a senadora Kátia, mas o que a JBS
está fazendo é uma chantagem ao governo, por ter interesses econômicos
contraditórios”.
O juiz Márlon Reis entende que a confusão entre
público e privado na prática governamental brasileira é, hoje, nada mais
do que extensão das relações econômicas indiscriminadas entre
candidatos e empresas durante o período eleitoral. “A campanha é a
véspera do mandato. Se a campanha for uma relação íntima entre
candidatos e empresas, ela perdurará depois, até como forma de
recompensar essas empresas”, explica. Movimentação da OAB
Até
agora, o passo mais contundente para desmontar a influência das grandes
empresas no financiamento de campanhas foi dado pela Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB). A organização entrou com uma ação direta de
inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) contra as
doações eleitorais feitas por empresas.
O processo tem, por
enquanto, seis votos favoráveis e um contrário — ou seja, já construiu
maioria no STF, que é composto por 11 ministros. Um desses votos é do
ministro Luís Roberto Barroso.
Para Barroso, o financiamento por
empresas é “antirrepublicano e antidemocrático” por duas razões: não
impede que o mesmo doador financie vários candidatos e não restringe a
participação de empresas doadoras na gestão do governante eleito. “Isso
não é exercício de liberdade de expressão, portanto considero que nesta
hipótese ou há uma pressão — para não dizer um achaque — ou a pessoa
está comprando um favor futuro. O candidato eleito termina pagando com
dinheiro público o favor privado”, critica o ministro.
O
presidente da OAB, Marcus Vinicius Coêlho, argumenta que a prática fere o
princípio constitucional da igualdade. “O atual regime exacerba as
desigualdades sociais ao permitir que os ricos tenham possibilidade
muito maior de influir nos resultados das eleições. Alguém, por ter mais
recursos ou por ser dono de uma empresa, não pode ter um fator de
participação maior no momento mais importante da democracia”, discorre
ele.
A movimentação no Supremo, provocada pela ação da OAB, pode
levar o tribunal a se pronunciar sobre a questão antes do Congresso
Nacional, já abrindo o caminho para o debate.
O cientista
político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), crê que a
expectativa do resultado favorável à ação pode quebrar a inércia do
Legislativo em debater objetivamente o financiamento. “Ao decidir, os
parlamentares terão em mente a decisão do STF. Acho que essa tendência
de vetar a doação de empresas vai ajudar a convencer a classe política a
favor do financiamento público”.
A votação no STF está parada
desde abril, devido a um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.
Humberto Costa já protestou no Plenário do Senado contra a demora e
cobrou de Mendes a devolução do processo.
“O Poder Judiciário deve
cumprir a sua parte com o aperfeiçoamento da democracia no Brasil.
Senhor ministro, o Brasil espera que Vossa Excelência devolva ao debate
essa ação, para que o STF possa tomar uma ação definitiva”, exortou o
líder do PT, em outubro. Dinheiro público
Entre
quem debate o tema, não existe consenso a respeito de qual forma
deveria tomar um modelo de financiamento público de campanha ou quais
dimensões e profundidade ele alcançaria. Entre os questionamentos que se
colocam na discussão, estão a proibição total ou parcial da
participação de empresas, a questão das doações por pessoas físicas e a
forma de distribuição do dinheiro público destinado a financiar
campanhas.
O ex-senador Francisco Dornelles, hoje vice-governador
do Rio de Janeiro, presidiu, em 2011, a Comissão Especial de Reforma
Política do Senado, que elaborou diversos projetos de reestruturação
política e eleitoral — nenhum dos quais foi aprovado em definitivo até
hoje. Ele é favorável a mudanças, mas não muito profundas. “É muito
difícil fazer um financiamento exclusivamente público. O sistema que
existe hoje deve ser aperfeiçoado, estabelecidos alguns limites”,
defende.
Apesar de apoiar a redução da participação do setor
privado no financiamento de campanhas, Dornelles mostra-se reticente
quanto a um modelo de financiamento completamente público, bancado pelos
cofres do Estado. Ele também tem dúvidas quanto ao manuseio dos
recursos. “Hoje você pode dar dinheiro a quem pensa como você. No
financiamento público, seu dinheiro vai para partidos que você não
gostaria de ajudar. E como uma cúpula partidária distribuiria esses
fundos? Mandariam para os amigos do partido, os estados em que eles
querem prevalecer”, questiona.
O senador Ronaldo Caiado (DEM-GO)
confia na viabilidade de um modelo de financiamento público, contanto
que ele venha acompanhado de uma mudança no sistema eleitoral
proporcional que institua o voto em lista fechada para as eleições
proporcionais (de deputados e vereadores). Essa medida, para ele,
permitiria uma distribuição organizada do dinheiro e facilitaria a
fiscalização dos gastos pelos tribunais eleitorais.
“No momento
que você tem uma lista preordenada, nenhum candidato vai fazer campanha
individual, e sim partidária. Com a lista, cabe aos tribunais fiscalizar
apenas 32 partidos. Hoje, sem a lista, é necessário fiscalizar 500 mil
candidaturas no Brasil. É inviável”, diz Caiado.
O senador
acredita, ainda, ser uma temeridade entregar o dinheiro diretamente aos
candidatos e entende que o financiamento público, se aplicado, deveria
abastecer os caixas dos partidos, que então distribuiriam as verbas
entre os candidatos segundo critérios próprios — daí a necessidade, para
ele, do sistema de candidaturas em lista fechada.
A necessidade
de conjugar o financiamento público à adoção da lista fechada também é
lembrada pelo professor David Fleischer. Ele ainda coloca como
alternativa a proposta do movimento Coalizão Democrática, capitaneada
pela OAB e outras 43 entidades, que propõe eleição proporcional em dois
turnos, sendo o primeiro reservado à votação na legenda para definir os
quocientes partidários e o segundo dedicado à votação nominal em
candidatos, estabelecendo os eleitos. Ambos os casos são vistos por
Fleischer como formas de reduzir os custos as campanhas.
“O
financiamento público só vai ser viável se a quantidade de candidatos
for reduzida drasticamente, e a lista fechada pode ajudar. A proposta de
eleições proporcionais em dois turnos reduz o número de candidatos no
segundo, e a campanha entre os turnos tem duração pequena, o que reduz
as despesas eleitorais”.
Já para definir em que proporção o
dinheiro chegaria aos partidos, o senador Ronaldo Caiado sugere um
cálculo que combine a representação parlamentar das legendas e o peso
das bancadas estaduais. Partidos com mais membros na Câmara receberiam
mais verbas nas eleições seguintes, de forma a refletir a preferência do
eleitorado. Esse critério seria ponderado pelos desempenhos eleitorais
dos partidos nos diferentes estados, de forma a melhor contemplar as
siglas que fossem mais bem votadas nos estados mais populosos.
A
forma de distribuição do dinheiro é objeto de um projeto de lei já
existente no Senado, fruto dos trabalhos da Comissão Especial de Reforma
Política. O Projeto de Lei do Senado 268/2011 aplica as regras de
distribuição de verbas do Fundo Partidário às verbas públicas que seriam
destinadas ao financiamento eleitoral. Ao mesmo tempo, ele cria
barreiras à participação de pessoas físicas e jurídicas no caixa dos
partidos.
A justificativa do texto elaborado pela comissão
especial ressalta que os dispositivos permitem uma melhor fiscalização
da prestação de contas dos partidos, já que determina a separação do
caixa de campanha dos demais recursos e define a quantia exata de
dinheiro lá disponível. O projeto foi aprovado em caráter terminativo
pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), mas foi alvo
de um recurso para ir a votação no Plenário, onde ainda não foi incluído
na ordem no dia.
Modelo diferente de financiamento de campanhas
com dinheiro público é sugerido pelo senador Reguffe (PDT-DF). Ele não
considera uma boa ideia distribuir os recursos diretamente para partidos
ou candidatos, pois vê brecha para mau uso do dinheiro ou proliferação
de legendas de aluguel. “Vai ter gente querendo ser candidato só para
ganhar dinheiro”, alerta.
A ideia de Reguffe é a realização de
licitações para cada um dos serviços da campanha eleitoral, como
impressão de panfletos e gravação de programas de rádio e televisão. A
empresa que vencesse a concorrência prestaria o mesmo serviço a todos os
candidatos, igualando a disputa em termos de produtos.
“A
campanha seria chata, mas a pessoa teria que ganhar no convencimento, no
conteúdo, nas propostas. Isso daria uma menor desigualdade e uma
igualdade de condições entre todos os que fossem candidatos. Aí seria
democracia pra valer”, explica o senador Reguffe, que já chegou a
apresentar a mesma proposta quando era deputado federal, mas promete
defendê-la no Senado.