Apesar de ser um país rico em recursos naturais e com um PIB (Produto Interno Bruto)
figurando sempre entre os 10 maiores do mundo, o Brasil é um país
extremamente injusto no que diz respeito à distribuição de seus recursos
entre a população. Um país rico; porém, com muitas pessoas pobres, devido ao fenômeno da desigualdade social, que é elevado.
Pesquisadores
da área social e econômica atribuem essa elevada desigualdade social no
Brasil a um contexto histórico, que culminou numa crescente evolução do
quadro no país.
Mesmo sendo uma
nação de dimensões continentais e riquíssima em recursos naturais, o
Brasil desponta uma triste contradição, de estar sempre entre os dez
países do mundo com o PIB mais alto e, por outro lado, estar sempre
entre os 10 países com maiores índices de disparidade social.
Dados da Desigualdade
Em um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas),
que foi divulgado em julho de 2010, o Brasil aparece com o terceiro
pior índice de desigualdade no mundo e, em se tratando da diferença e
distanciamento entre ricos e pobres, fica atrás no ranking apenas de
países muito menores e menos ricos, como Haiti, Madagascar, Camarões,
Tailândia e África do Sul.
A ONU
mostra ainda, nesse estudo, como principais causas de tanta
desproporcionalidade social, a falta de acesso à educação de qualidade,
uma política fiscal injusta, baixos salários e dificuldade da população
em desfrutar de serviços básicos oferecidos pelo Estado, como saúde,
transporte público e saneamento básico.
Teóricos
brasileiros, pessoas e instituições que estão à frente de iniciativas
que visam diminuir, e quem sabe, acabar com o problema da desigualdade
no Brasil, apontam uma difícil fórmula que deve aliar democracia com
eficiência econômica e justiça social como uma solução viável para o
problema.
Mesmo com a Constituição Federal e diversos códigos e estatutos,
assegurando o acesso à educação, moradia, saúde, segurança pública,
além de autonomias econômicas e ideológicas, a realidade que se vê ainda
é distante do que se reza nos direitos do cidadão brasileiro no tocante
à erradicação da desigualdade social neste país, em constante
crescimento econômico e político.
A Dinamarca colhe hoje os frutos de
mais de 350 anos de empenho contra a corrupção no setor público e
privado e, mais uma vez, figura no topo do ranking de 168 países da ONG
Transparência Internacional, o principal indicador global de corrupção.
Desde
que o índice foi criado, em 1995, o país está nas primeiras posições –
em que estão as nações vistas como menos corruptas. Nos últimos cinco
anos, só não esteve no primeiro lugar em 2011, que ficou com a Nova
Zelândia. Esse é o segundo ano consecutivo em que está sozinha no topo.
O
Brasil foi um dos países que registrou a maior queda no ranking neste
ano: caiu sete posições, para o 76º lugar. A ONG liga a queda ao
escândalo da Petrobras.
O Índice de Percepção de Corrupção é
baseado em entrevistas com especialistas – em geral, membros de
instituições internacionais como bancos e fóruns globais – que avaliam a
corrupção no setor público de cada país.
Na raiz do bom
desempenho dinamarquês estão iniciativas de meados do século 17, quando a
Dinamarca perdia parte de seu reinado para a Suécia e via que era
preciso ter uma administração mais eficiente para coletar impostos e
financiar batalhas em curso.
Numa época em que a nobreza gozava de
vários privilégios, o rei Frederik 3º proibiu que se recebessem ou
oferecessem propinas e presentes, sob pena até de morte. E instituiu
regras para contratar servidores públicos com base em mérito, não no
título. A partir de então, novas medidas foram sendo instituídas período
a período.
Peter
Varga, coordenador regional da Transparência Internacional para Europa e
Ásia Central, alerta, entretanto, que "países que estão no topo do
ranking naturalmente não estão livres de corrupção", pondera
Casos
envolvendo empresas e políticos vez ou outra ganham destaque na
Dinamarca. Há dois anos, a empresa dinamarquesa Maersk foi apontada na
Operação Lava Jato como possível autora de pagamento de propinas a
ex-executivos da Petrobras. E a falta de controle nos financiamentos de
campanha é bastante criticada.
"Entretanto, neles isto é uma exceção, não a regra", complementa o representante da Transparência Internacional.
Embora
não esteja imune ao problema, a Dinamarca traz alguns bons exemplos que
podem servir de inspiração para se combater a corrupção em países como o
Brasil. Confira:
1) Menos regalias para políticos
O
político Peder Udengaard é membro reeleito do conselho municipal (o
equivalente a um vereador) de Aarhus, segunda maior cidade da Dinamarca,
com cerca de 300 mil habitantes. Vive numa zona de classe média no
centro e não possui carro, por isso vai a pé ao trabalho. Recebe um
salário de 10 mil coroas dinamarquesas (R$ 6 mil) para horário parcial,
complementados com atividades na direção de uma orquestra.
O único
benefício que recebe é um cartão para táxi, que só pode ser usado
quando participa de eventos oficiais. A entrevista concedida à BBC
Brasil na prefeitura, por exemplo, não estava nesta lista. Duas vezes ao
ano, a prefeitura promove eventos fora da cidade e, aí sim, pode-se
gastar com deslocamento e alimentação. Presentes precisam ser tornados
públicos e repassados a entidades civis.
"Essas regras independem
do cargo, pode ser do mais baixo ao mais alto", explica Udengaard. "Se
eu tivesse filhos, iriam para a escola pública; encontro meu eleitorado
no supermercado, na rua, no banco. Não tenho mais benefícios do que
qualquer cidadão. Se quisesse enriquecer ou ter privilégios, não seria
político", completa.
Nos últimos anos, o primeiro-ministro Lars
Løkke Rasmussen foi acusado em algumas ocasiões de ter usado dinheiro
público para pagar contas em restaurantes, táxis, aviões, hotéis e até
roupas em cargos como prefeito, ministro e presidente da organização
Global Green Growth Institute (GGGI), que recebe recursos do governo.
Confirmaram-se roupas pagas pelo seu partido, Venstre, e passagens pela GGGI, episódios duramente criticados.
2) Pouco espaço para indicar cargos
Tentar
beneficiar-se do setor público não é tarefa fácil na Dinamarca. Um dos
motivos é que, quando o político é eleito, a equipe que trabalhará com
ele é a mesma da gestão anterior. Além disso, o profissional que não
reportar um ato ilícito é demitido.
"Receber incentivos econômicos
seria difícil, porque os funcionários não estão interessados em
acobertá-los", afirma Peder Udengaard, garantindo nunca ter sido
informado de algum caso ilícito na prefeitura de Aarhus.
"Regras
claras sobre conflitos de interesse, códigos de ética e declaração
patrimonial são muito importantes", comenta Peter Varga, destacando que
elas geralmente são consideradas eficientes em países no topo dos
rankings de corrupção, mas ressaltando que mesmo na Dinamarca a tentação
de se aceitar propinas ou exercer influência indevida é geralmente mais
forte quanto mais perto se está do centro tomador de decisões
políticas.
3) Transparência ampla
A
Dinamarca também é considerada a nação mais transparente no ranking
"2016 Best Countries" ("Melhores países 2016"), da Universidade da
Pensilvânia, dos Estados Unidos.
Os sites dos governos, de todas
as instâncias, costumam ser bem munidos de dados sobre gastos de
políticos, salários, investimentos por áreas etc. E qualquer cidadão
pode requerer informações que não estejam lá.
No Brasil,
especialistas concordam que a transparência vem avançando. Fernanda
Odilla de Figueiredo, pesquisadora sobre corrupção do Brazil Institute
no King's College, de Londres, elogia a Lei de Acesso à Informação e os
portais de transparência, mas cobra acesso irrestrito:
"Em 2013,
informações sobre viagens internacionais do presidente e do
vice-presidente da República foram reclassificadas e só poderão ser
acessadas depois que eles deixarem o poder, e no ano passado o governo
de São Paulo decretou sigilo de determinados dados", critica.
4) Polícia confiável e preparada
Raramente,
casos de corrupção envolvem a polícia dinamarquesa. A confiança na
instituição é considerada muito alta, segundo o relatório 2015-2016 de
competitividade global do Fórum Econômico Mundial.
"A polícia goza
de alto nível de confiança. Ser um policial geralmente é considerado
uma posição relativamente de status. Isto faz jovens considerarem a
carreira", acrescenta o especialista em segurança, Adam Diderichsen,
professor da Universidade de Aalborg.
Diderichsen também explica
que boas condições de trabalho agregam à qualidade do serviço. Após
terminar o ensino médio, policiais recebem pelo menos dois anos de
treinamento.
A cultura policial dinamarquesa dá ênfase a meios não
coercitivos: eles usam armas, mas estão menos propensos a empregá-las
do que em países fora da Escandinávia. Em geral, segundo o especialista,
recebem um "bom salário de classe média, especialmente se for levado em
conta a generosa aposentadoria".
5) Baixa impunidade
O
código criminal da Dinamarca proíbe propina ativa ou passiva, abuso de
poder público, peculato, fraude, lavagem de dinheiro e suborno.
Em
2013, o Parlamento adotou emendas para fortalecer a prevenção,
investigação e indiciamento de crimes econômicos. As penas hoje vão de
multa a prisão de seis anos. Elas não são consideradas tão rígidas.
Mesmo assim, são aplicadas e cumpridas.
Para a Transparência
Internacional, o motivo são as instituições fortes e independentes de
Justiça. Já segundo o especialista em corrupção Gert Tinggaard Svendsen,
professor da Universidade de Aarhus, há mais do que isso.
"As
leis não são tão duras, o que é duro é o mecanismo de punição. A
tolerância à ilegalidade na Dinamarca é baixíssima não só com relação às
instituições, mas até com indivíduos do convívio que infringem normas
das mais simples", diz.
6) Confiança social
Na
Dinamarca, é comum alugar um livro da biblioteca sem o intermédio de um
funcionário. Em alguns estabelecimentos, pode-se pegar o item, por
exemplo uma fruta, e deixar o dinheiro.
Ou, mais surpreendente,
famílias não hesitam em deixar seus filhos num carrinho de bebê do lado
de fora de um restaurante. Esses pontos, segundo Gert Tinggaard
Svendsen, também autor do livro Trust, têm algo em comum: a confiança.
"A
confiança social traz regras informais ao jogo. São regras não
escritas, entre pessoas. A confiança é a palavra-chave da
autorregulação", explica Tinggaard, que pesquisou em 86 países se as
pessoas confiavam umas das outras. Na Dinamarca, mais de 70% disseram
que sim. No Brasil, apenas 10%.
Segundo ele, os dinamarqueses
historicamente passaram a confiar nos indivíduos e, além disso, em suas
instituições. Para a ONG, a confiança social ajuda a prevenir a
corrupção, pois torna o desvio à norma um tabu. Por outro lado, quanto
maior a corrupção, menor a confiança da população.
7) Ouvidoria forte
A
Ouvidoria Parlamentar é um órgão que emprega cem funcionários e recebe
por ano cinco mil reclamações contra o governo. Destas, pelo menos 50%
resultam em críticas ou recomendações. Mais do que apenas notificações, a
instituição tem poder de promover mudanças das mais diversas.
"Se
outros países quisessem aprender com a Dinamarca, eles deveriam, por
exemplo, ter um escritório parlamentar de ouvidoria com uma auditoria
independente para ajudar a controlar o Legislativo e Executivo", pontua
Peter Varga, da Transparência Internacional.
8) Empenho constante contra a corrupção
O
combate à corrupção na Dinamarca começou no século 17, mas sofreu um
aumento no século 19, após uma crise econômica. Para controlar o
problema, foi instaurada a tolerância zero na administração real.
Segundo a professora da Universidade de Aarhus, Mette Frisk Jensen,
pesquisadora do tema, os níveis de corrupção são baixos desde então.
Para
Fernanda Odilla de Figueiredo, a experiência da Dinamarca nos ensina
que o combate à corrupção não é resolvido de uma só vez. Trata-se de um
processo longo, em que é preciso estar sempre vigilante.
"O maior
mérito da Dinamarca não é ser o primeiro lugar do ranking, mas se manter
no topo por tanto tempo. Isso significa que o Brasil precisa não apenas
melhorar o combate à corrupção, como encontrar uma forma de fazer isso
de forma estável e consistente."
A teoria das elites
surgiu no final do século 19 tendo como fundador o filósofo e pensador
político italiano, Gaetano Mosca (1858-1941). Em seu livro "Elementi di
Scienza Política" (1896), Mosca estabeleceu os pressupostos do elitismo
ao salientar que em toda sociedade, seja ela arcaica, antiga ou moderna,
existe sempre uma minoria que é detentora do poder em detrimento de uma
maioria que dele está privado.
Os poderes econômicos,
ideológicos e políticos são igualmente importantes, mas em seus escritos
Mosca deu ênfase à força política das elites. O restrito grupo de
pessoas que a detém também pode ser denominado de classe dirigente.
De acordo com esta teoria as sociedades estão divididas entre dois
grupos: os governantes e os governados. Os governantes são menos
numerosos, monopolizam o poder e impõem sua vontade valendo-se de
métodos legítimos ou arbitrários e violentos ao restante da sociedade. Governantes e governandos
O conceito de divisão do poder entre governantes e governados, porém,
não é algo novo e consta nos escritos de muitos filósofos e pensadores
antigos e modernos (Maquiavel, Montesquieu, Karl Marx, entre outros).
Entretanto, a originalidade da teoria das elites formulada por Mosca,
advém da preocupação em explicar que a classe dirigente (ou seja, os
governantes) constitui uma minoria detentora do poder pelo fato de serem
mais organizados.
Desse modo, seja por afinidade de interesses
ou por outros motivos, os membros da classe dirigente constituem um
grupo homogêneo e solidário entre si, em contraposição aos membros mais
numerosos da sociedade, que se encontram divididos, desarticulados e
consequentemente, desorganizados.
Importante enfatizar também
que, segundo o estudo realizado por Mosca, a dominação política exercida
por um grupo minoritário dentro da sociedade pode ser presenciada em
qualquer sistema de governo: ditadura ou democracia. Desigualdades sociais
Depois que Gaetano Mosca formulou a teoria das elites, outros
pensadores sociais empregaram o termo "elite" de maneira diversa, dando
origem a novos conceitos e teorias. No campo das ciências sociais, por
exemplo, o estudo das elites políticas beneficiou o desenvolvimento da
ciência política.
Neste aspecto, devemos considerar os estudos
do economista e sociólogo, Vilfredo Pareto (1848-1923), que publicou
dois estudos importantes: "Manual de Economia Política" (1906) e
"Tratado de Sociologia Geral" (1916). No "Tratado de Sociologia Geral",
Pareto se preocupou com o estudo da interação social entre as diversas
classes de elites, cujas mais importantes, segundo ele, são: as elites
políticas e as elites econômicas.
O mais importante destaque do
estudo é o processo de decadência das elites, observado por Pareto,ou
seja, historicamente as elites lutam entre si e se sucedem umas às
outras no exercício da dominação política.
Pareto também chama a
atenção para o fato de que, em qualquer sociedade, os homens são
desiguais. As desigualdades entre os indivíduos contribuem diretamente
para o surgimento das elites.
Pareto tinha convicção na
superioridade das elites econômicas e políticas porque acreditava que as
desigualdades sociais faziam parte da "ordem natural" das coisas.
Devido à sua intransigente defesa da dominação das elites, e também por
ser um crítico contumaz de qualquer forma de regime socialista, Pareto é
apontado como o ideólogo precursor do fascismo. Não obstante, ele nunca
aderiu formalmente ao regime fascista italiano. Oligarquias partidárias
Os estudos de Mosca e Pareto serviram de base para formulação de novas
teorias das elites. Dentro deste campo de pesquisa, cabe destacar o
estudo do sociólogo alemão Robert Michels (1876-1936), "Partidos
Políticos: um Estudo Sociológico das Tendências Oligárquicas da
Democracia Contemporânea" (1912). Neste estudo, Michels analisou a
dinâmica inerente à política democrática a partir da observação dos
partidos políticos de massa.
Com base em evidências empíricas
demonstrou que mesmo dentro das organizações partidárias que funcionam
num sistema político democrático, há fortes tendências à elitização, ou
seja, concentração de poder num grupo restrito de pessoas. Michels
chamou essa tendência à elitização de "lei de ferro das oligarquias".
A maior contribuição da teoria das elites formulada por Michels se
refere ao fato, inusitado e paradoxal, de que a elitização ocorre até
mesmo no interior das organizações comprometidas com os princípios de
igualdade e democracia, ou seja, os partidos políticos de massa.
O conceito de elitização e "lei de ferro das oligarquias" também pode
ser aplicado aos sindicatos, corporações e grandes organizações sociais.
Uma organização, partido político ou movimento social podem surgir em
decorrência de verdadeiros objetivos igualitários e democráticos, porém,
com o passar do tempo, a tendência à elitização ou oligarquização se
manifesta. Outras definições
Fora do
campo dos estudos acadêmicos o termo "elite" é usado para se referir aos
grupos hierarquicamente superiores dentro de uma organização
burocrática; o exemplo mais comum é a referência às certas unidades
militares dentro das Forças Armadas.
Também é comum denominar
de elite os grupos que estão situados em posições sociais superiores
como acontece com as classes sociais, detentoras de poder econômico.
Outras referências genéricas são aplicadas às organizações burocráticas e
empresariais.
Renato Cancian, Especial para a
Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em
sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro
?Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política -
1972-1985?.
ACI Digital
– O STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu nesta quinta-feira, em
decisão unânime, a equiparação da união homossexual à heterossexual,
outorgando direitos como pensão, herança e adoção de crianças a casais
do mesmo sexo. O presidente do Supremo, Cezar Peluzo, deu o décimo e
último voto a favor da união gay após uma sessão de cinco horas. O voto
causou a repercussão de representantes da CNBB, em especial de Dom
Henrique Soares Costa, bispo de auxiliar de Aracaju que considerou que a
atitude do STF foi antidemocrática e vergonhosa.
Segundo o Jornal A Folha de São Paulo, “o
artigo 1.723 do Código Civil estabelece a união estável heterossexual
como entidade familiar. O que o Supremo fez foi estender este
reconhecimento a casais gays”.
Em seu artigo “A arrogância de um
judiciário que esnoba a sociedade”, publicado no seu blog “Visão
Cristã”, Dom Soares denunciou que “pelo reto ordenamento, a alteração da
Constituição compete somente ao Poder Legislativo. Ao Judiciário cabe
vigiar pela aplicação plena das leis, sobretudo da Constituição
Federal”.
“Ontem, passando por cima do artigo 226 da nossa Carta, o
STF jogou na lata do lixo o texto que ele tem por precípua competência
salvaguardar! Não se constrói democracia enfraquecendo instituições ou
extrapolando competências. Ontem, vergonhosamente, o STF julgou-se no
direito de legislar…”, lamentou o prelado.
“Quem poderia introduzir mudanças no artigo 226 da Constituição, alterando a definição de família?”, questionou o bispo. “Somente
o Congresso Nacional, que representa o pensar do povo brasileiro. É
importante compreender isto: o Legislativo representa o povo e delibera
em seu nome (de modo ainda mais específico: os deputados representam o
povo brasileiro e os senadores representam os estados da Federação). A
confecção e alteração das leis dependem, portanto, do querer da
sociedade, da vontade do povo, de quem emana todo poder numa democracia
verdadeiramente madura”, asseverou.
“Com a aberração de ontem, o Supremo passou por cima do sentir do povo brasileiro e de seus legítimos representantes. Sem
legitimidade alguma, de modo autoritário e arrogante, a Corte Maior,
sem ouvir o povo brasileiro – que não é sua competência – julgando-se
iluminada por um saber vindo de preconceitos laicistas e de uma visão
imanentista totalmente estranha à imensa maioria do nosso povo,
arvorou-se no direito de ser luz para os ignorantes congressistas e para
o obtuso povo brasileiro”, afirmou Dom Soares.
Falando sobre a questão da união
homossexual reconhecida como família, o bispo indica que a Igreja não é
contra os homossexuais. Mas, “a Igreja tem o direito e o dever
de afirmar claramente aos seus fieis o que é segundo a vontade de Deus e
o que é contrário ao seu desígnio. Segundo a revelação divina, somente a
relação marital entre homem e mulher faz parte do plano de Deus e é
segundo a sua vontade”.
“A vivência marital entre duas pessoas do
mesmo sexo é pecado. A Igreja orienta; cada um faça como deseja… Por
que, então, a Igreja se opõe à legalização da união homossexual como
família? Porque isto destrói o conceito de família: se tudo é família,
nada mais é família; seu conceito, sua realidade, ficam totalmente
diluídos!”
“A decisão do STF não é motivada pela
serena busca do respeito aos direitos humanos, mas pelos cânones
ideológicos do politicamente correto. É só. E isto é muito grave!”,
conclui Dom Soares.
Antes da decisão do Supremo o
representante da Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) ante o
STF defendeu neste organismo a definição do matrimônio como união entre
homem e mulher contemplada na Constituição do país, ante as tentativas
por legalizar as uniões homossexuais.
O advogado Hugo Cysneiros falou em nome
da CNBB que a “pluralidade tem limites” e recordou que no capítulo sete,
a Constituição reconhece explicitamente o matrimônio como “a união
estável entre o homem e a mulher como entidade familiar”.
O representante explicou que “o
Episcopado não deve trazer seu catecismo a este lugar, mas a pedir bom
senso tendo como referência a Constituição”.
Sociólogo diz que Judiciário é um Poder "tão corrupto quanto os outros dois"
Magistratura | Publicação em 02.08.13
Montagem de Camila Adamolli sobre foto de ESPSP
Aldo Fornazieri, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo
O Poder Judiciário foi o menos atingido pelos protestos
ocorridos no País no mês passado. Em vários lugares ele chegou a ser
festejado nas ruas, na figura do ministro Joaquim Barbosa, relator do
processo do mensalão no STF.
Pesquisas de opinião realizadas
após a grande onda de manifestações confirmam essa percepção. Um
levantamento do Ibope destinado a medir anualmente o índice de confiança
nas instituições mostra que, enquanto em julho do ano passado a
porcentagem de pessoas com alguma ou muita confiança no Judiciário
chegava a 59%, no mesmo mês desse ano ela desceu para 50%.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo, em matéria assinada pelos jornalistas Roldão Arruda e José Roberto de Toledo.
Embora
seja uma variação significativa, é muito menor do que a verificada com
outros poderes. Em relação ao Legislativo, no mesmo período o índice
variou de 35% para 25%.
Entrevista com Aldo Fornazieri
A que se pode atribuir essa resistência do Judiciário aos protestos ?
Na
entrevista a seguir, o sociólogo Aldo Fornazieri, diretor da Escola de
Sociologia e Política de São Paulo, aponta algumas razões. A primeira
delas seria "o superávit de imagem positiva" que o STF deu ao
Judiciário com o julgamento do mensalão. Esse superávit, porém, na
avaliação do sociólogo, é meramente circunstancial e já começou a
desmoronar. "O Judiciário é tão corrupto e ineficiente quanto o Legislativo e o Executivo", diz ele.
A que atribui a ausência de ataques ao Judiciário nas manifestações de junho?
Aldo Fornazieri:
No momento dos protestos, o Judiciário, especialmente o STF, estava com
um superávit de imagem positiva. Ainda havia um recall positivo em
torno do julgamento do mensalão, o que tornava esse poder, naquele
momento, a instituição de maior credibilidade. Por que frisou 'naquele momento' ? Aldo Fornazieri: Porque o Judiciário é tão corrupto
quanto os outros dois poderes, o Legislativo e o Executivo.
Recorrentemente surgem denúncias e escândalos nesta área. Envolvem
muitas vezes a compra e a venda de sentenças. Se pegar o caso específico
do Tribunal de Justiça de São Paulo verá que está envolvido com
denúncias fortes, sobre o pagamento de benesses indevidas, com o desvio
de milhões de reais. Por outro lado, as tentativas de fiscalização do
Conselho Nacional de Justiça enfrentaram forte resistência em São Paulo.
Não há, portanto, a menor dúvida de que o Judiciário se equipara aos
demais poderes em termos de corrupção. Existiria algum outro motivo, além do mensalão, para o Judiciário ter sido poupado nos protestos ?
Aldo Fornazieri:
Eu citaria mais duas razões. A primeira é que os escândalos do
Judiciário não têm tanto destaque na mídia quanto os do Legislativo e do
Executivo. Eles aparecem menos. A segunda é que o cidadão, de maneira
geral, tem uma relação mais direta com o Legislativo e o Executivo - até
porque é ele, cidadão, quem elege os representantes nesses poderes. No
Judiciário, com exceção dos ministros do Supremo, as figuras são menos
conhecidas. Se você citar os nomes dos juízes do Tribunal de Justiça de
São Paulo, pouquíssimas pessoas vão identificá-los. A relação entre o
Judiciário e os cidadãos, portanto, é mais difusa, o que atenua a
fiscalização sobre esse poder. Há menos percepção na sociedade sobre as falhas do Judiciário ?
Aldo Fornazieri:
Sim. Além de tão corrupto quanto os outros poderes, o Judiciário é
extremamente deficiente. Quanto demora o julgamento de um caso na
Justiça? Pode demorar décadas. Já foram feitas tentativas, nos últimos
15 anos, de reforma dessa estrutura, mas os problemas continuam. O
déficit de eficiência permanece.
O senhor inclui o Supremo nessa análise sobre deficiências? Aldo Fornazieri: Como já disse, o Supremo atravessou
os protestos com a imagem razoavelmente boa, em função do mensalão.
Logo em seguida, porém, começaram a surgir denúncias sobre uso indevido
de equipamentos públicos por parte do próprio Joaquim Barbosa e de
outros ministros. Nesse caso também a mídia não deu muita ênfase. No caso de Barbosa, considera justas as críticas feitas a ele por
ter recebido R$ 580 mil em benefícios atrasados ? E quanto à polêmica
da compra do apartamento em Miami ? Apesar de existirem controvérsias
nos dois casos, aparentemente não há ilegalidades.
Aldo Fornazieri:
Não há nada de ilegal também na maior parte das viagens de ministros em
aviões da Força Aérea Brasileira. Só no primeiro semestre deste ano
havia uma brecha de 1.600 viagens em jatinhos para ministros e outras
autoridades. O problema muitas vezes não é tanto o da legalidade -
especialmente quando você considera que as leis no Brasil protegem muito
os políticos e outros representantes públicos. O problema está mais
relacionado à moralidade. Os poderes no Brasil são refratários à ideia
de bons exemplos - e o Judiciário se enquadra nessa situação. O que seria um bom exemplo? Aldo Fornazieri: Veja o caso do papa Francisco.
Quando abre mão do luxo e das benesses do poder, quando opta por um
estilo de vida frugal e escolhe um carro mais simples para circular, ele
se torna um símbolo disso que estamos falando, que é o bom exemplo. Na
teoria, entre os filósofos, os políticos clássicos, sempre se enfatiza a
necessidade de bons exemplos da parte dos governantes. Só assim eles
contribuem para a melhoria da moralidade da sociedade. Não é isso que se
vê no Brasil. Aqui os governantes são especialistas em dar maus
exemplos. Está falando em desperdício de recursos públicos?
Aldo Fornazieri:
Sempre. Quando a presidente Dilma Rousseff foi a Roma, para posse do
papa, ela e sua comitiva se hospedaram no hotel mais caro da cidade,
conforme os jornais divulgaram na época. Isso é um mau exemplo para a
sociedade. Quando o Joaquim Barbosa, eventualmente, usa algum
equipamento público para algo que não é relevante, também é um mau
exemplo. Voltamos à questão do que não é ilegal mas pode ser imoral. Aldo Fornazieri: Veja o caso dos carros mantidos por
assembleias legislativas e câmaras de vereadores que buscam e levam os
parlamentares para suas casas após o trabalho. Embora seja legal, o
benefício é ilegítimo e imoral, porque o cidadão comum tem que pegar
ônibus para ir ao trabalho. O poder público no Brasil está eivado desses
benefícios ilegítimos e imorais. Isso se torna mais grave quando
consideramos que a sociedade está carente de bons serviços.
Associa essa carência à queda nos índices de aprovação dos governos, como mostrou pesquisa do Ibope?
Aldo Fornazieri:
A pesquisa tratou dos governos federal e estaduais, mas se fosse
estendida aos prefeitos o quadro não seria melhor. Há uma clara
percepção da sociedade de que os governos não estão atendendo às
necessidades fundamentais da população, como saúde, educação e segurança
pública. Existe uma crise de governança eficaz no Brasil. Nesse rol
também entra o mau uso do recurso público, que equivale a um tipo de
corrupção. Quando o Judiciário paga benesses indevidas a seus
representantes, quando usa carros de forma indevida e assim por diante, é
uma forma de corrupção. Ela não se resume ao roubo de dinheiro público.
Fala-se muito no abismo que existiria entre governados e governantes. Isso se estende ao Judiciário?
Aldo Fornazieri:
Ele está completamente distante da sociedade. Os juízes estão numa
redoma, na qual ignoram o que acontece ao seu redor e usam de forma
indevida os recursos públicos. Muitos são permissivos com os que têm
dinheiro e poder e rigorosos com pobres e desamparados.