Verbete integrante da Enciclopédia - Volume 3,
de Diderot e d'Alembert, organização Pedro Paulo Pimenta e Maria das
Graças de Souza. São Paulo: Editora Unesp, 2015, págs. 265-267. É
permitida a reprodução, desde que citada a fonte.
Em Filosofia,
corrupção é
o estado em que uma coisa deixa de ser o que era. Pode-se dizer que a
madeira é corrompida quando vemos que ela não subsiste, e em seu lugar
encontramos fogo. Do mesmo modo, um ovo é corrompido quando deixa de ser
ovo e encontramos em seu lugar um pintinho. A palavra corrupção não é
tomada aqui no sentido vulgar. Daí o axioma da Filosofia, uma coisa é
corrupção, outra é geração.
Corrupção difere de geração como dois contrários diferem entre si.
Difere
da alteração assim como o maior do menor ou o todo de sua parte. Diz-se
que uma coisa foi alterada quando não mudou a ponto de se tornar
irreconhecível e conserva ainda seu antigo nome. Mas, após sua
corrupção, nem uma nem outra subsistem. Ver
Alteração.
Assim
como na geração nenhuma matéria é verdadeiramente criada, também na
corrupção nada é realmente anulado, além da modificação particular que
constituía a forma de um ser e que o determinava a tal ou qual espécie.
Ver
Forma e
Geração.
Os antigos acreditavam que
muitos insetos eram engendrados por corrupção. Hoje, essa opinião é
considerada um erro, por mais que pareça respaldada por experiências
cotidianas. Com efeito, o que corrompe produz sempre vermes, mas esses
vermes só nasceram porque outros insetos depositaram ali os seus ovos.
Um experimento é a prova sensível dessa verdade.
Tomai um boi que
acaba de ser abatido. Colocai um pedaço de sua carne num pote descoberto
e outro pedaço num pote bem fechado, que cobrireis com um pedaço de
pano para que o ar possa passar, mas sem que nenhum inseto possa
depositar seus ovos sobre ela. Ao primeiro pedaço acontecerá o esperado,
ficará recoberto de vermes, pois as moscas depositam ali livremente os
seus ovos. O outro pedaço será alterado pela passagem do ar, secará, se
reduzirá a pó pela evaporação, mas não se encontrarão nem ovos nem
vermes ou moscas. Ademais, as moscas, atraídas pelo odor, acudirão aos
montes para o pote fechado, tentarão entrar e depositarão alguns ovos
sobre o pano, por não conseguirem entrar. No fundo, como diz o Sr.
Pluche, é tão absurdo defender que um pedaço de queijo engendraria
traças quanto querer que uma árvore ou uma montanha engendrassem cervos
ou elefantes. Pois insetos são corpos organizados, tão equipados com as
diferentes partes necessárias à vida quanto os corpos de animais
maiores.
No entanto, alguns filósofos modernos ainda parecem ser
favoráveis à opinião antiga de uma geração por corrupção, ao menos em
certos casos. O Sr. Buffon, em sua
Histoire Naturelle, p.320 do
v.II, parece inclinar-se por essa opinião. Após ter exposto o seu
sistema de moléculas orgânicas, do qual se falará no artigo Geração,
conclui que provavelmente haveria tantos seres produzidos pela agregação
fortuita de moléculas orgânicas quantos os produzidos pela via
ordinária de geração. À produção desses seres, diz ele, aplica-se o
axioma dos antigos,
corruption unius generatio alterus. Os
vermes que se formam na goma de farinha não teriam outra origem, segundo
ele, além da agregação de moléculas orgânicas da parte substancial do
grão de trigo. Os primeiros vermes a surgir, diz ele, certamente não são
produzidos por outros vermes; mas, embora não sejam engendrados,
engendrariam outros seres vivos. A exposição detalhada dessa teoria
encontra-se na obra referida. É inegável que, em geral, as partículas
que compõem um inseto não podem ser reunidas por outra via além da
geração; mas não conhecemos suficientemente bem as vias e mecanismos da
natureza para chegar a uma afirmação assertiva a esse respeito. É certo
pela experiência que, na maioria dos casos em que insetos parecem ser
engendrados, na verdade o são por geração. Estaria por isso demonstrado
que a corrupção jamais poderia engendrar corpos animados? Eis o que não
se deve afirmar de maneira taxativa. De resto, o próprio Sr. Buffon
reconhece que seriam necessárias mais observações para estabelecer,
entre os seres assim engendrados, classes e gêneros.
(Tradução de Pedro Paulo Pimenta)